A palavra religião carrega no seu próprio nome uma promessa. Religar. Reconectar o ser humano à presença de Deus. Se a etimologia estiver certa, religião deveria ser sinônimo de espaço de vida. Mas quem lê os Evangelhos e o livro de Atos descobre uma coisa incômoda: com frequência a religião foi espaço de morte. Foi tribunal, foi pedra na mão, foi dente rangendo. E ninguém consegue ilustrar isso melhor do que a história de Estêvão, o primeiro mártir da fé cristã, narrada em Atos 6 e 7.
Antes de entrar no texto, um detalhe de vocabulário. Mártir vem da palavra grega para testemunha, e testemunha é palavra-chave em Atos. Está no versículo programático do livro, At 1.8, quando Jesus diz que os discípulos seriam suas testemunhas em Jerusalém, na Judeia, em Samaria e até nos confins da terra. Até a morte de Estêvão, a igreja estava restrita a Jerusalém. Foi a perseguição desencadeada por aquele apedrejamento que espalhou o evangelho pela Judeia e por Samaria (At 8.1,4). O sangue do primeiro mártir foi, por ironia da providência, o combustível da expansão missionária.
Mas não quero falar de perseguição. Quero falar de outra coisa que esse texto expõe: a religião que mata. E quero começar pelo nosso reflexo mais automático diante dele.
O herói da história sou sempre eu
Quando lemos Atos 7, nos identificamos com Estêvão. É instintivo. A religião que mata, pensamos, é a religião dos outros. É a religião de quem está fora do espaço onde eu congrego. Eu jamais estaria no Sinédrio. Eu estaria do lado do diácono cheio do Espírito Santo, claro.
É muito fácil dizer isso a dois mil anos de distância. É muito fácil dizer isso quando já sabemos o final da história. A verdade desconfortável é que muitos de nós, conhecendo o nosso coração pecaminoso, provavelmente estaríamos naquela multidão gritando que aquele homem estava pervertendo a palavra de Moisés (At 6.13-14).
Isso me lembra um fenômeno identificado na França depois da Segunda Guerra. A Alemanha nazista teve muitos simpatizantes e colaboradores franceses. Quando a guerra acabou, porém, os franceses começaram a contar a si mesmos uma história diferente: nós resistimos, nós lutamos contra o nazismo. O historiador Henry Rousso deu nome a esse autoengano coletivo no livro Le syndrome de Vichy (1987). Gerações inteiras acreditaram que seus pais tinham combatido os nazistas quando, na verdade, boa parte havia colaborado com eles. Uma nação contando para si mesma uma história que não aconteceu.
Os fariseus e saduceus do Sinédrio sofriam da mesma síndrome. Eles homenageavam os profetas do passado. Diziam: somos filhos de Isaías, somos herdeiros de Jeremias, que ministério lindo o de Amós. E então Estêvão abre a boca e desmonta a narrativa: qual dos profetas os pais de vocês não perseguiram? (At 7.52). Vocês não são filhos dos que honraram os profetas. São filhos dos que os mataram. É como se ele dissesse: se eu fizesse uma pesquisa de popularidade hoje, Jeremias estaria lá em cima. Mas no tempo em que Jeremias profetizava, ele vivia sozinho, isolado, sem ninguém querendo segui-lo.
Essa verdade também vale para nós. Olhamos os heróis da fé e dizemos: que homem de Deus, eu estaria lá aplaudindo. Talvez não. Talvez, se vivêssemos no tempo deles, estaríamos atirando pedras e gritando: desviado, você está pervertendo os costumes.
O rosto de anjo e o coração de Faraó
O contexto do julgamento é conhecido. Israel era uma nação subjugada a Roma, mas Roma não interferia nos crimes religiosos. Esses eram julgados pelo Sinédrio, uma corte de setenta juízes formada majoritariamente por sacerdotes saduceus, com alguns fariseus ocupando assentos. Estêvão, diácono de origem grega, três vezes descrito em Atos como homem cheio do Espírito Santo (At 6.3,5; 7.55), é levado a essa corte sob a mesma acusação que pesou sobre Jesus: falsas testemunhas afirmando que ele falava contra a lei de Moisés e contra o templo (Mt 26.59-61; Mc 14.56-58; At 6.11-14).
E aqui Lucas registra uma das ironias mais finas do Novo Testamento. Diz At 6.15 que todos os que estavam sentados no Sinédrio, fitando os olhos em Estêvão, viram o seu rosto como o rosto de um anjo. O homem acusado de atentar contra Moisés é justamente o homem cujo rosto resplandece como resplandeceu o rosto de Moisés ao descer do Sinai (Êx 34.29-35). Aqueles setenta juízes estavam ali para proteger a honra de Moisés, e quem refletia o brilho de Moisés era o réu.
Convém não romantizar esse rosto de anjo. Quando os anjos aparecem na Bíblia, a primeira frase costuma ser: não tenha medo (Dn 10.12; Lc 1.13,30; 2.10). Por quê? Porque a aparição angélica assusta. A glória de Deus não é fofa. Ela expõe. Ela traz ao ser humano o senso da própria finitude. Aqueles homens não estavam vendo um querubim rechonchudo de bochecha rosada como nos desenhos. Estavam vendo um rosto de santidade, e o rosto da santidade desnuda o mal que mora em nós.
Diante da glória de Deus, ou eu volto melhor, ou eu volto pior. Não existe neutralidade. Lembre-se de Faraó. Quanto mais ele via o poder de Deus, mais o seu coração se fechava. Mais cruel ficava, mais obstinado. Por isso o texto bíblico pode dizer que Deus endureceu o coração de Faraó: quanto mais Deus se manifestava, mais aquele coração se trancava (Êx 7.13; 9.12; 10.20). O mesmo aconteceu com homens religiosíssimos diante de Jesus. Eles viram Lázaro sair do túmulo e a primeira coisa que pensaram foi: precisamos matar Jesus (Jo 11.43-53). Quanto mais luz, alguns enxergam melhor. Outros ficam ainda mais cegos. Os juízes de Estêvão olhavam para um rosto angelical e cegavam.
Dura cerviz e ouvido incircunciso
O clímax do sermão de Estêvão está em At 7.51, onde ele chama seus juízes de homens de dura cerviz, incircuncisos de coração e de ouvidos, que sempre resistem ao Espírito Santo. A expressão dura cerviz merece atenção. A imagem é a do boi que enrijece o pescoço e luta contra a direção de quem o conduz (Êx 32.9; Dt 9.6,13). Gente inflexível, que não abre o coração para a palavra porque já se considera dona da verdade.
E o tempo verbal importa. Estêvão diz que eles resistem ao Espírito, no presente contínuo, como hábito de vida. A resistência não começou naquele julgamento. O Espírito falava pelos profetas, falava pela palavra, e eles vinham resistindo havia gerações. Eram pessoas que frequentavam o templo, pagavam seus dízimos, ofereciam seus sacrifícios. E ainda assim Jesus disse a essa mesma classe religiosa que prostitutas e publicanos chegariam antes deles ao Reino de Deus (Mt 21.31). Por quê? Porque o pecador notório sabe que é pecador. Não vende virtude porque não tem virtude para vender. O religioso de coração incircunciso tem muita virtude para vender e muito engano para acreditar.
Aqui preciso fazer uma pergunta que dirijo primeiro a mim mesmo. Se nada muda a minha opinião, se nada muda o meu comportamento, eu estou de fato ouvindo a palavra? Claro, quem muda de opinião toda hora tem outro problema, é pessoa instável. Mas se eu carrego há anos as mesmas opiniões, os mesmos conceitos, as mesmas condutas, e entro em culto, saio de culto, ouço pregação atrás de pregação, e nada me leva a sair dizendo “Senhor, hoje tu falaste comigo e hoje serei diferente do que tenho sido”, a palavra está ressoando em mim? Ou eu já me considero pronto?
Certa vez preguei na igreja que minha avó, já falecida, frequentava. No dia seguinte uma irmã foi até ela e disse: amei a pregação, mas o irmão João é que devia ter estado no culto ouvindo aquilo. O nome não era João, mas fica João, porque isto aqui fica registrado. A irmã enxergou outra pessoa que precisava ouvir. Não se viu incluída na mensagem. Quantas vezes saímos do culto pensando em quem deveria ter ouvido o sermão que era para nós?
O profissional da fé
Há uma oração que faço de tempos em tempos: Deus, não me deixes virar um profissional da fé. Profissional da fé é quem se acostumou com a fé. E ser crente por fora é fácil. Para homem é mais fácil ainda. Vai ao shopping, compra um terno, aprende uma língua nova chamada evangeliquês. Não se diz mais boa noite, agora é a paz do Senhor. Não se pergunta mais “tudo bem?”, chega-se perguntando “e aí, tá na bênção?”. Pronto. Aprendeu os costumes, marcou todos os itens da lista do bom evangélico. Por fora, cem por cento. Por dentro, um pagão. Coração incircunciso.
É exatamente o que Estêvão diz àqueles homens: por fora vocês são a essência do religioso de Israel, vestem-se como religiosos, comem como religiosos, falam como religiosos, e o coração de vocês é um coração pagão. E ele acrescenta a acusação que talvez mais nos atinge hoje: vocês receberam a lei por ministério de anjos e não a guardaram (At 7.53; Gl 3.19; Hb 2.2). Eles colocavam a lei num pedestal altíssimo e não a obedeciam. Eu me pergunto quanto o nosso movimento evangélico repete esse erro. Erguemos a Bíblia com orgulho e proclamamos: palavra de Deus, inerrante, infalível, santa e sagrada Escritura. E não a lemos. Exaltei o livro, cumpri minha parte, agora ele volta fechado para a estante. De que adianta confessar a inerrância de um texto que eu não amo, não medito e não pratico? O salmista guardava a palavra no coração para não pecar contra Deus (Sl 119.11). Guardar no coração é outra coisa: é, de fato, interiorizar essa Palavra.
O rangido dos dentes e o Filho do Homem em pé
A reação ao sermão é descrita com precisão clínica, afinal, Lucas era médico (Cl 4.14). Ouvindo aquilo, seus corações se encheram de furor e rangiam os dentes contra Estêvão (At 7.54). O verbo grego traduzido por “encher-se de furor” sugere algo que rasga por dentro, como quem engole uma bebida fervendo. Eles ouviam e algo fervia, mas não era o fervor do Espírito. Era, isso sim, o fervor da ira.
E rangiam os dentes. Jesus usa essa mesma imagem para descrever o inferno (Mt 8.12; 13.42,50; 22.13; 25.30). Durante muito tempo li o ranger de dentes como expressão de pavor ou de dor. Hoje entendo de outro modo. O inferno é a plenitude de tudo o que o pecado promete: ódio, rancor, ressentimento em estado puro. O ranger de dentes é a ira levada à sua consumação. Quando o Sinédrio range os dentes contra Estêvão, Lucas está nos mostrando de onde vinha aquela ira. Era uma ira infernal habitando corações religiosos.
E em meio a esse barulho todo, gritos, dentes rangendo, multidão avançando, Estêvão fica parado, em silêncio, olhando para o céu. Cheio do Espírito Santo, ele vê a glória de Deus e Jesus à direita do Pai (At 7.55-56). E aqui está um dos detalhes mais extraordinários de todo o Novo Testamento: é o único texto bíblico que descreve Jesus em pé à direita de Deus (At 7.55-56). Em todas as demais passagens, Jesus está assentado (Mc 16.19; Rm 8.34; Hb 1.3; 10.12; 12.2; 1Pe 3.22). Por que em pé agora?
Lembre-se: Estêvão está sendo julgado. É um tribunal. Falsas testemunhas se levantaram contra ele. Mas João escreve que temos um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo (1Jo 2.1). No momento em que homens de dura cerviz condenavam Estêvão na terra, seu Advogado se levantava para recebê-lo na glória. Em pé, em posição de honra.
Há ainda outra camada nessa visão. Uma das acusações contra Estêvão era falar contra o templo, o espaço que representava a presença de Deus (At 6.13-14). E o que Estêvão vê, expulso do espaço religioso controlado pelos saduceus, prestes a ser expulso da própria cidade? Vê a glória de Deus (At 7.55). A cena anuncia que a glória já não está confinada a um edifício. Onde houver um servo do Senhor com os olhos voltados para o céu, ali está a presença de Deus, mesmo no meio de uma turba assassina.
A oração que Saulo nunca esqueceu
Eles o arrastaram para fora da cidade, segundo o costume de expulsar o mal para longe do espaço da ordem, e o apedrejaram (Lv 24.14; Dt 17.5-7; At 7.58). O texto registra um detalhe de crueldade fria: as testemunhas deixaram suas capas aos pés de um jovem chamado Saulo (At 7.58). Tiraram as capas para ficar mais livres para apanhar pedras do chão. E enquanto o apedrejavam, o que fazia Estêvão? Orava (At 7.59-60).
Aqui aprendemos o que é um profeta. O profeta tem mensagem dura, mas não sente prazer na dureza da mensagem. O profeta não é quem aponta o dedo dizendo “vocês estão condenados ao fogo” com um sorriso de satisfação no canto da boca. O profeta é quem diz “vocês são homens de dura cerviz” e em seguida se ajoelha clamando: Senhor, não os condenes por este pecado (At 7.51,60). O profeta sente a presença de Deus, sim, mas sente sobretudo o pathos de Deus, a dor de Deus, a compaixão de Deus por aqueles mesmos que ele confronta. Deus não enxerga pecadores como baratas a serem esmagadas. Enxerga seres humanos carentes de graça. Estêvão morre orando duas orações que ecoam as palavras de Jesus na cruz, agora dirigidas ao próprio Jesus: recebe o meu espírito, não os condenes (Lc 23.34,46; At 7.59-60).
E o que eu mais amo nesse texto é saber que aquela oração não caiu no vazio. Aquele jovem Saulo, que consentia na morte de Estêvão e dava apoio logístico ao apedrejamento, certamente ouviu a oração e a achou ridícula (At 7.58; 8.1). Um herege usando o nome de Deus em vão nos últimos instantes de vida, deve ter pensado o fariseu cego pelo zelo. Tão duro que Jesus precisou derrubá-lo no caminho de Damasco para alcançá-lo (At 9.1-19; 22.6-16; 26.12-18). Mas tenho convicção de que, depois daquele encontro, Paulo se lembrou da oração. Lembrou-se de um servo do Senhor que, debaixo de pedras, pediu misericórdia para os seus assassinos. E a misericórdia chegou.
Esse é o coração do homem cheio do Espírito Santo (At 6.5; 7.55). Ele prega a verdade, prega contra o pecado, confronta a dura cerviz, e intercede pelos que o apedrejam. Não deseja o inferno a ninguém. O coração de Estêvão era o coração de Jesus. Que a nossa religião produza corações assim, porque a alternativa o Sinédrio já mostrou onde termina: com pedras na mão, capas no chão e dentes rangendo, tudo em nome de Deus.
Esta mensagem foi pregada no dia 19 de maio de 2026, durante culto na Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Sobradinho (DF). Veja o vídeo neste link.
