Acho que foi num artigo do teólogo James K. A. Smith no jornal The Washington Post (leia aqui) que li, pela primeira vez, formulada com clareza, uma percepção que há muito tempo me incomodava: parte considerável da identidade evangélica contemporânea foi organizada em torno do medo. Não estou falando daquele temor de Deus que, na tradição bíblica, nasce da reverência, da lucidez moral e da consciência de que a criatura não ocupa o centro do universo (Pv 1.7; Ec 12.13). Refiro-me a outro tipo de medo, mais rasteiro e mais politicamente manipulável, que transforma a fé em instinto defensivo, a igreja em fortaleza sitiada e o mundo em ameaça permanente.
Esse medo não surge do nada. Há razões históricas, culturais e institucionais para ele. Muitos evangélicos brasileiros olham para o país e enxergam sinais concretos de desorganização moral, insegurança pública, corrupção política, fragilidade familiar, confusão educacional, hostilidade crescente contra convicções cristãs tradicionais e uma vida pública cada vez mais dominada por ressentimento, escândalo e espetáculo. Há pais preocupados com a formação dos filhos, pastores inquietos com a pressão ideológica sobre temas sensíveis, igrejas cansadas de serem tratadas como caricatura pela imprensa, pela universidade ou pelo debate político, e cristãos comuns que percebem, com alguma razão, que a linguagem bíblica já não é entendida por boa parte da sociedade. Seria injusto tratar todas essas preocupações como paranoia. Algumas nascem de problemas reais. Outras são ampliadas por diagnósticos apressados. Outras, porém, foram deliberadamente infladas por pastores, pregadores, influenciadores políticos e empresários da indignação, que descobriram no medo uma das maneiras mais eficientes de mobilizar o público evangélico.
O problema começa quando o medo deixa de ser uma reação ocasional diante de perigos concretos e passa a funcionar como princípio organizador da identidade. Nesse ponto, a pergunta deixa de ser “o que Cristo nos chama a ser?” e passa a ser “contra quem precisamos lutar?”. A fé, então, começa a definir-se menos pelo amor a Deus, pela esperança do Reino, pela santidade cotidiana, pela paciência histórica e pela prática da misericórdia, e mais pela necessidade de encontrar inimigos reconhecíveis (Mt 5.13-16; Rm 12.9-21; 1Pe 3.15). O medo precisa de rostos, slogans e uma narrativa simples, na qual nós somos os últimos guardiões da verdade e todos os demais participam, consciente ou inconscientemente, de um plano de destruição.
O resultado é uma imaginação religiosa permanentemente em estado de alerta. Mudanças culturais, mesmo quando pedem exame cuidadoso, são interpretadas como sinais de decadência terminal; divergências internas, que poderiam ser tratadas com maturidade teológica e caridade pastoral, rapidamente se transformam em acusações de traição; e a prudência, em vez de ser reconhecida como virtude cristã, passa a ser vista como sintoma de fraqueza. Nesse ambiente, o cristão aprende a viver com os nervos expostos. A reação toma o lugar do discernimento, a suspeita ocupa o espaço da escuta, e a esperança, embora ainda confessada nos cânticos e sermões, perde força na maneira concreta como a comunidade enxerga o mundo. O perigo maior está justamente aí: a suspeita se reveste de zelo espiritual e, por isso mesmo, consegue corroer a alma sem parecer pecado (Tg 1.19-20; 1Jo 4.18).
Há algo profundamente antibíblico nessa identidade governada pelo medo. A Escritura não ignora a ameaça. O povo de Deus sempre viveu entre impérios, ídolos, perseguições, tentações, falsas seguranças e poderes hostis. A Bíblia é realista demais para produzir uma espiritualidade ingênua. Mas o centro da fé bíblica não é o pânico diante da história. Israel canta no exílio (Sl 137.1-6). Os profetas denunciam sem desespero. Maria louva enquanto carrega no ventre o Messias sob dominação romana (Lc 1.46-55). Paulo escreve sobre alegria dentro da prisão (Fp 4.4-7). João vê bestas, impérios e perseguições, mas o trono permanece ocupado (Ap 4.2; 13.1-18). O Apocalipse tem monstros, mas sua mensagem principal não é o medo; é a soberania de Deus sobre os poderes que se julgam absolutos (Ap 1.17-18; 19.6).
A diferença é decisiva. Uma fé pautada pela esperança não nega o mal, embora se recuse a conceder ao mal o direito de definir sua imaginação. Quando o medo governa a vida religiosa, a visão moral se estreita, porque tudo passa a ser medido pela urgência da autopreservação; a esperança, por sua vez, alarga o horizonte do cristão, pois o ensina a perguntar não apenas como atravessar a crise, mas que tipo de fidelidade Deus requer no meio dela. Por isso, enquanto o medo se impacienta com processos longos e exige vitórias imediatas, a esperança sustenta uma obediência capaz de permanecer no tempo, suportar perdas, corrigir rotas e agir sem transformar cada derrota parcial em prova de abandono divino (Rm 5.1-5; Hb 10.23-25).
Talvez uma das tragédias do evangelicalismo atual seja ter confundido coragem com irritação. Muitos pensam que estão sendo proféticos quando estão apenas ansiosos. Pensam que defendem a verdade quando, na realidade, defendem um ambiente emocional no qual se sentem úteis, indignados e cercados por inimigos. O profeta bíblico, porém, não é um comentarista nervoso da decadência alheia. Ele fala diante de Deus, contra o pecado real, inclusive o pecado do próprio povo. Por isso, a verdadeira profecia começa pela purificação da imaginação religiosa. Antes de denunciar os ídolos da cultura, a igreja precisa perguntar quais medos ela passou a cultuar (Is 1.10-20; Am 5.21-24; 1Pe 4.17).
E aqui a análise de James K. A. Smith, ao menos como a recebi, torna-se especialmente incômoda. Nós somos moldados por ideias explícitas, mas também por hábitos, afetos, repetições e pequenas liturgias cotidianas. Uma comunidade pode confessar a esperança cristã no culto de domingo e, ao longo da semana, ser discipulada pelo medo por meio de vídeos, correntes, manchetes alarmistas, teorias conspiratórias, púlpitos ressentidos e conversas que reduzem a realidade a uma guerra permanente. Com o tempo, aquilo que a pessoa diz crer já não governa aquilo que ela ama, teme e imagina. A doutrina permanece ortodoxa no papel, enquanto os afetos são catequizados por outro evangelho (Rm 12.2; Cl 3.1-17).
Esse ponto é central. O medo é uma força formativa. Ele ensina o corpo a ficar em guarda, a mente a simplificar, o coração a desconfiar e a linguagem a endurecer. Um cristão tomado pelo medo pode continuar usando vocabulário bíblico, mas suas palavras passam a carregar outro espírito. Ele fala de verdade sem mansidão, de santidade sem beleza, de missão sem compaixão, de juízo sem lágrimas, de esperança sem alegria. A fé se mantém correta em termos formais, porém emocionalmente pagã, porque passa a viver como se Deus fosse frágil, como se Cristo estivesse acuado, como se o Espírito Santo dependesse da nossa histeria para preservar a igreja (2Tm 1.7; Gl 5.22-23).
O curioso é que o medo costuma prometer segurança e entregar servidão. Ele diz proteger a fé, mas frequentemente a empobrece. Diz defender a família, mas ensina os filhos a associar religião com raiva. Diz preservar a doutrina, mas substitui o estudo sério por frases de combate. Diz resistir ao mundo, mas copia do mundo seus métodos de manipulação, sua obsessão por poder, sua vulgaridade retórica e sua incapacidade de ouvir. No fim, a igreja que se define pelo medo pode até vencer algumas batalhas culturais, mas perde algo muito mais precioso: a serenidade de quem sabe que a verdade não precisa ser defendida com mentira, crueldade ou pânico (Ef 4.25-32; Cl 4.5-6).
A esperança cristã, por sua vez, não é otimismo temperamental. Não é a crença superficial de que tudo acabará bem porque as pessoas são boas ou porque a história progride naturalmente. A esperança cristã nasce da ressurreição. Ela sabe que o mundo é capaz de crucificar o justo, mas sabe, com igual firmeza, que Deus ressuscita os mortos (At 2.22-36; 1Co 15.12-28). Por isso, ela não precisa fabricar ilusões nem alimentar desespero. Ela permite que o cristão olhe para a decadência sem cinismo, para a perseguição sem vitimismo, para a perda de privilégios sem colapso emocional, para a pluralidade política sem idolatria e para o futuro sem necessidade de controle absoluto.
Uma igreja formada pela esperança não se torna passiva. Ao contrário, torna-se mais livre para agir. Quem vive com medo precisa controlar tudo; quem vive pela esperança pode obedecer com fidelidade mesmo quando os resultados não estão garantidos. Quem vive com medo transforma adversários em monstros; quem vive pela esperança consegue reconhecer a imagem de Deus até em quem discorda profundamente. Quem vive com medo confunde prudência com traição; quem vive pela esperança sabe que a verdade não perde sua força quando é dita com domínio próprio (Mt 5.43-48; 2Tm 2.24-26).
Isso tem consequências políticas. Uma comunidade evangélica governada pelo medo será sempre presa fácil de líderes autoritários. Basta que alguém prometa proteção contra os inimigos certos. Não precisa demonstrar virtude. Não precisa respeitar instituições. Não precisa falar a verdade. Só precisa encarnar a fantasia de defesa. Quando isso acontece, muitos cristãos acabam trocando a linguagem do discipulado pela linguagem da sobrevivência tribal. A pergunta moral deixa de ser “isso é justo?” e passa a ser “isso favorece o nosso lado?”. Poucas corrupções espirituais são tão devastadoras quanto essa, porque ela preserva símbolos religiosos enquanto esvazia o caráter cristão (Mq 6.8; Mt 23.23; Jo 18.36).
O evangelicalismo precisa recuperar uma identidade mais antiga, mais bíblica e mais robusta. A igreja não é uma comunidade de pessoas que descobriram como permanecer assustadas juntas. É o povo que ouviu a notícia da vitória de Cristo e, por causa disso, pode viver com coragem humilde num mundo instável (Jo 16.33; Rm 8.31-39). Essa coragem nem sempre precisa ser barulhenta. Muitas vezes, ela aparece em formas discretas: um pastor que se recusa a espalhar boatos porque ama a verdade; uma família que educa os filhos sem paranoia; uma igreja que trata divergências políticas sem transformar irmãos em inimigos; um cristão que não terceiriza sua consciência para influenciadores; uma comunidade que ora, estuda, serve, evangeliza e pensa antes de compartilhar a próxima indignação.
Talvez o antídoto comece com uma pergunta simples: que tipo de pessoa nossa fé está formando? Quando a resposta aponta para alguém mais desconfiado, mais irritado, mais cruel, mais vulnerável a boatos, mais dependente de inimigos e menos capaz de alegria, então algo deu errado, mesmo que o vocabulário doutrinário esteja correto. A árvore se conhece pelos frutos (Mt 7.15-20). Uma ortodoxia que produz pânico como hábito, ressentimento como identidade e mentira como instrumento de combate precisa ser confrontada com a própria fé que diz defender.
A identidade evangélica não pode ser edificada sobre o medo, porque o medo é incapaz de sustentar uma comunidade verdadeiramente cristã. Ele pode mobilizar multidões, arrecadar dinheiro, eleger candidatos, vender livros, gerar engajamento e criar sensação de pertencimento. Mas não pode formar santos. Não pode produzir mansidão. Não pode ensinar paciência. Não pode criar uma cultura de verdade. Não pode nos fazer parecidos com Cristo.
A esperança, sim. Não a esperança sentimental, frágil, incapaz de olhar para o mal, mas a esperança pascal, aquela que atravessa a sexta-feira da crucificação sem aceitar que Pilatos, Herodes, César ou a multidão tenham a última palavra. Essa esperança nos permite viver sem ingenuidade e sem desespero. Ela desarma a alma sem torná-la fraca. Ela nos devolve a coragem sem nos transformar em fanáticos. Ela nos lembra que a igreja não precisa entrar em pânico para ser fiel, porque o futuro da fé não repousa sobre a nossa ansiedade, mas sobre a fidelidade do Deus que ressuscita os mortos (1Pe 1.3-9; Ap 21.1-5).
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